Earl Sweatshirt – I Don’t Like Shit, I Don’t Go Outside (2015)

Featured image   22 horas de um dia qualquer estava eu costumeiramente voltando da faculdade, moro numa casa em cima de um morro, e enquanto subia este morro a segunda música do álbum do qual lhes escrevo tocava em meu celular, Mantra, e era incrível como ela aderia bem o ambiente ao meu redor, as nuvens escuras no céu estrelado cobrindo um pouco da lua até o facho de luz dos postes que iluminavam gatos empoleirados em cima dos muros, era tudo muito atmosférico ao mesmo tempo em que a faixa me sugava para um universo muito pessoal e introspectivo de Earl, onde as letras, volte e meia falando de coisas objetivas e compreensíveis, alternavam prum abstracionismo que já marcava presença no álbum prévio do rapper, Doris.

 Drop this when the sunlight gone, better run right home when the sky turn black

Earl sempre foi o melhor MC do coletivo de rap Odd Future, encabeçado por Tyler, The Creator. Desde a primeira mixtape do rapper (intitulada Earl) já ouvíamos resquícios de que escondido por trás daqueles beats divertidamente mal produzidos e secos e por das letras exageradamente violentas, respirava uma promessa. O problema de Earl talvez tenha sido ser muito influenciado pelo seu meio nessa primeira obra, que soa mais como uma derivação de Bastard, do seu colega Tyler.

Depois veio Doris, aonde fomos apresentado a um Earl mais focado em seu próprio estilo, e que por mais pessoal e abstrato que o álbum seja, não deixa de ter uma ligação ao Odd Future, Earl ainda não havia encontrado sua sonoridade, mas tinha chegado perto.

IDLSIDGO é Earl soando mais Earl que nunca. A produção do álbum conta com beats lo-fi embalando letras que transitam entre o abstracionismo até depressão por falta de amigos, solidão, luto e tudo mais. Sim, é um álbum bem emotivo, não bastasse isso o flow de Earl casa perfeitamente com a produção, que pontualmente conta com momentos instrumentais bem inspirados, daqueles que faz você arregalar os olhos e falar “Meu irmão, sente esse baixo“.

A vida do rapper sempre foi muito turbulenta e basta ver algumas entrevistas dele pra ver que ele é um cara retraído, tímido, mas que sabe do que fala e entende das angústias da vida, mesmo que por sua própria ótica. Earl já estudou num internato contra sua vontade e ficou um tempo afastado do coletivo, até atingir a maioridade e também perdeu sua avó em 2013, pessoa a qual Earl deixa evidenciado em muitas letras ter sido alguém importante em sua vida. Earl é aquela típica pessoa que encontra na música a voz ideal pra se expressar, é assim que esse álbum soa, como um grande lamento para com a vida ao mesmo tempo em que o rapper se mostra seguro na sua carreira, crente de que é um dos melhores MC’s e ciente de seu talento.

 Chasing these rabbits whole face in the faucet  

A sinceridade de Earl ao decorrer do álbum cativa e agonia, maravilha e entristece, tudo isso em um curto período de duração, o álbum não chega a passar da marca dos quarenta minutos, mas tudo bem, é o suficiente.

 Lately i’ve been panicking a lot, feeling like i’m stranded in a mob, scrambling for Xanax out the canister to pop

O álbum conta com features de Da$h, Wiki, Na’kel e o usual colaborador de Earl em outras faixas, Vince Staples. Todos os feats são bem empregados e contribuem para o teor atmosférico do álbum.

Earl não se preocupa em ser um dos grandes rappers da atualidade e busca meios de produção não tão comuns ao ouvinte usual de rap, fugindo até mesmo do padrão de produção Odd Future que marcava seus trabalhos prévios, aqui temos um artista único trilhando seu próprio caminho sem dever satisfações, apenas sendo verdadeiro consigo, o que pra mim, traz Earl próximo a figura de Kendrick Lamar nesse aspecto mais ideológico e de se manter fiel aquilo que faz.

O álbum pode parecer simples e direto demais, mas é verdadeiro, e certamente te deixa curioso pra saber o que virá em seguida na carreira do rapper.

 I Dont Like Shit, I Dont Go Outside vai te fazer se sentir no fundo do oceano sentado próximo a corais do lado de Earl, e vocês trocam pensamentos sobre a vida, você se sente bem e fica feliz em ouvir seu amigo, mas existe um clima de paranoia no ar, vocês ainda tem que desviar dos tubarões.

NOTA FINAL: 9.0/10

Palinha:

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Tyler, The Creator – Cherry Bomb (2015)

Featured image Tyler, The Creator sempre foi uma figura controversa no meio musical, sendo que ele e o seu coletivo de rap OddFutureWolfGangKillThemAll (OFWGKTA) são um produto puro das mídias digitais, desde seus primórdios se promovendo através de plataformas sociais tais como Tumblr, Twitter e Facebook, postando qualquer coisa que viesse na mente sem qualquer tipo de restrição. O artista livre, um dos produtos mais puros da geração Do It Yourself, pulsando com energia e promessas para o futuro, todos aqueles que tiveram sua atenção cativada pelo coletivo aguardaram ansiosamente para conferir, afinal, o que viria a seguir.

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Anos se passaram desde o primeiro Mixtape de Tyler, Bastard, e desde o álbum que o lançou ao mainstream, Goblin, com o icônico single Yonkers. Dois anos desde o segundo álbum oficial do rapper, Wolf, que trazia um Tyler mais comprometido com a sua produção e notoriamente evoluindo como artista. Onde essa evolução levou? Abril de 2015, Tyler simplesmente anuncia um novo álbum de inéditas para acompanhar o lançamento de sua própria plataforma digital, a Golfmedia, com lançamento do álbum previsto para 5 dias após o anúncio. E eis que Cherry Bomb está entre nós. Após ouvir o álbum diversas vezes chego a conclusão do quão interessante a discografia do rapper é até aqui. Peguem a primeira mixtape, Bastard, e notem que dali até o primeiro disco oficial, Goblin, o conteúdo lírico se calca num shock value grosseiro, apesar de pontualmente divertido, alternando entre as mais sinceras melancólicas emoções de um adolescente não correspondido até estupros e assassinatos em série. O que pode soar ofensivo para algumas pessoas, embora a violência em músicas do odd future chegue a funcionar quase que como num filme de Tarantino: é tão exagerada e escrachada que não da pra levar a sério, você sabe que aquilo é ficcção. Quanto a produção até ali, beats mais secos e agressivos marcavam a carreira do rapper.

O lance por trás de toda a violência nas letras não só de Tyler como também de todo o grupo chegou a ser tanta a ponto de certos críticos taxarem o coletivo como “Horrorcore”, rótulo o qual Tyler sempre combateu e negou ser associado. A questão é, se o conteúdo lírico exalava uma imaturidade grosseira, por que uma fanbase tão fiel se formou em redor do grupo encabeçado por Tyler? Simples: por mais chocante que soe, também existe uma sinceridade emocional deveras tangível ali. Por trás de toda a grosseria é bem possível enxergar garotos que queriam fazer música e se divertir, mais do que isso, queriam que você se divertisse com eles. Toda a rebeldia adolescente fica muito bem transposta de uma maneira curiosamente divertida embaixo da temática das letras, e no disco Wolf, Tyler finalmente se rendeu ao seu lado mais sensível, compondo belas canções e arranjos instrumentais que contavam com pianos, ukuleles e letras tão sinceras quanto anteriormente, porém muito mais focadas e menos imaturas. No aspecto lírico me incomoda dizer que este novo álbum retorne um pouco a raiz da imaturidade do clássico Odd Future, onde aqui e ali temo boas linhas do rapper que te fazem soltar um sorriso de canto de boca, isso quando não são apagadas pela produção que embora tecnicamente impecável, apague muito das letras em algumas músicas, como Buffalo e Cherry Bomb, tornando quase indistinguível o que Tyler está dizendo. Talvez isto seja proposital, talvez seja apenas Tyler afastando o rapper dos holofotes e empurrando o produtor que existe nele na direção do grande facho de luz, de uma maneira ou de outra, a mixagem não deixa de ser agoniante.

Vejam bem, Cherry Bomb é um álbum curioso, explosivo e que caminha por faixas que bebem (algumas talvez não propositalmente) de influências como NERD (Deathcamp, Fucking Young) até um Kanye West meio Yeezus, ou quem sabe Death Grips (Cherry Bomb) passando por músicas com uma produção jazz neo-soul extremamente classuda de derreter os ouvidos (Find Your Wings, Smuckers, Okaca CA) chegando até em faixas menos experimentais e mais “curtíveis” com features de um Kanye West da era Late Registration juntamente de Lil Wayne rimando sobre arranjos de jazz (Smuckers) até um Schoolboy Q delirante como de costume (The Brown Stains). Sim, Cherry Bomb merece sua atenção, apesar de todas as suas falhas, não deixa de ser um álbum sincero onde o carinho na produção de Tyler é bem palpável e a mensagem que o álbum carrega, embora não possua uma narrativa conceitual como a dos álbuns antecessores, é bonita o suficiente pra te fazer sorrir, se você se importar de absorvê-la.

Find your wings.

NOTA FINAL: 6.5/10

Palinha: